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Escola Karma Kagyü do Budismo Tibetano

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ENSINAMENTOS

Um breve ensinamento sobre Refúgio

Por Sua Santidade 17o. Gyalwa Karmapa

Eu gostaria de apresentar um breve ensinamento sobre refúgio. É a compreensão e a observação do voto de refúgio que determina o fato de alguém ser budista. Fala-se também que uma pessoa não é praticante Mahayana se não tiver bodhicitta . A geração da bodhicitta ou a aspiração de bodhisattva para poder ajudar todos os seres sencientes é o que determina se sua prática é ou não Mahayana.

Deve-se entender que todo o caminho budista está incluído nos princípios de refúgio e bodhicitta. Todos os ensinamentos dados pelo Buda Shakyamuni estão contidos no refúgio e na bodhicitta. Temos, então, ensinamentos sobre as raízes do refúgio, os votos gerais e específicos do refúgio e muitas outras instruções relacionadas. As raízes do refúgio são a fé e a compaixão. Primeiramente há confiança e fé no Buda, no dharma e na sangha ( as Três Jóias ). Também há a compaixão, que deseja a libertação de todos os seres sencientes do sofrimento.

A fé nas Três Jóias pode ser de três tipos. A fé inspirada é a inspiração positiva que surge quando visitamos lugares sagrados onde há muitos objetos consagrados ou quando nos encontramos com grandes mestres ou nos reunimos com a sangha. A fé ensejada (de anseio, de aspiração) é a que nos faz desejar nos livrarmos do sofrimento e alcançar a paz dos mais elevados estados existenciais; queremos praticar boas ações e abandonar más ações, confiando na possibilidade de alcançar nosso objetivo. A fé de total confiança é a compreensão de que as Três Jóias são nosso único e absoluto refúgio. É a confiança sincera no Buda, no dharma e na sangha.

A compaixão por todos os seres sencientes é o desejo puro de libertá-los de todas as espécies de problemas e sofrimentos no oceano do samsara. Pensamos assim: "Todos os seres já foram minhas mães (em vidas passadas). Todos me amaram e cuidaram de mim como mães. Agora, então, eu gostaria de ajudá-los a se libertar de todo o sofrimento". Isto é compaixão. E estas são as raízes do refúgio.

Qual é a essência dos votos de refúgio? É o fato de não ter nenhum guia absoluto que não seja o Buda, não trilhar nenhum outro caminho verdadeiro que não seja o do dharma e não ter outros companheiros com quem percorrer o caminho que não seja a suprema sangha. Precisamos de companheiros para percorrer nosso caminho: se quisermos cruzar o rio, precisamos de um barqueiro; o barco não vai navegar sozinho, por contra própria. Se nos apoiarmos em más companhias ou falsos amigos, podemos nos desviar do caminho; queremos, portanto, encontrar as companhias certas e percorrer juntos o caminho correto. Esta é a suprema sangha (a nobre sangha dos bodhisattvas).

É necessário um comprometimento claro e imutável com as Três Jóias do refúgio. As instruções para a observação dos compromissos são muitas e podem ser divididas em gerais e específicas.

A primeira das instruções gerais é não abandonar o voto de refúgio nem que isso lhe custe a vida, ou que lhe traga grandes recompensas. Se alguém, por exemplo, empilhar uma enorme quantidade de riquezas e disser: "Isto pode ser seu se você abandonar seu voto de refúgio" – não se deve abandonar o voto.

Em segundo lugar, mesmo que você tenha grandes sofrimentos e dificuldades, não deve confiar em nada além das Três Jóias.

Em terceiro, deve-se fazer oferendas às Três Jóias e aos objetos sagrados que representam o corpo, a palavra e a mente de um Buda.

Quarto, deve-se observar os votos de refúgio e persuadir outros a confiar nas Três Jóias tanto quanto possível. Não é suficiente que a própria pessoa siga os preceitos do refúgio, mas ela deve trazer outros para a direção certa; se alguém estiver seguindo por um caminho errado, ela deve tentar trazê-lo para o caminho certo.

Quinto, deve-se fazer prostrações aos Budas das dez direções, ao Buda da direção para a qual você estiver se dirigindo. Isso significa apenas que se deve manter o respeito, lembrar-se de toda a bondade e homenagear os Budas de manhã, à tarde e à noite.

Há ainda as instruções para os preceitos específicos no que se refere às Três Jóias.

Em primeiro lugar, se tomamos refúgio no Buda, não devemos tomar os deuses e deidades mundanos como fonte absoluta de refúgio. Os deuses mundados são, por exemplo, Brahma, Indra, Vishnu e Shiva, ou Tsens e Gyalpo e outros espíritos. Como eles estão no s amsara , como poderão ajudar alguém a se libertar? Portanto, como pode ser visto nas “ Trinta e sete práticas de um Bodhisattva” (de Thogme Rinpoche), não se deve tomar refúgio nos seres mundanos não-iluminados.

Em segundo lugar, tomar refúgio no darma significa deixar de prejudicar os seres sencientes. Esses seres vivos incluem não apenas os que têm quatro pernas e pêlos, mas todos os que têm órgãos de sentidos ou mente (inclusive os insetos). Deve-se deixar de matar e roubar e trilhar o caminho da não-violência.

Em terceiro, quando se toma refúgio na sangha, não se deve perder tempo com companhias negativas; se fizer isso, você será encaminhado para caminhos negativos em vez de positivos.

Há três preceitos a serem observados com relação ao respeito às Três Jóias:

Primeiro, quando se toma refúgio no Buda, você reverencia os Budas e seus representantes. Isso inclui colocar imagens do Buda em locais de respeito, fazer prostrações e oferendas e assim por diante (imagens do Buda não devem ser colocadas no chão).

Segundo, quando se toma refúgio no dharma, deve-se reverenciar o dharma e suas representações, até mesmo uma letra ou uma sílaba relacionadas com o dharma.

Terceiro, ao tomar refúgio na sangha, deve-se respeitá-la e aos seus representantes, como os que usam os mantos da sangha. Mesmo se encontrar um pedaço de um manto vermelho na rua, deve-se pensar que se isso também representa a sangha não deve ser tratado de maneira desrespeitosa.

 



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Passemos às três instruções que dizem respeito aos votos.

Em primeiro lugar, ao tomar refúgio no Buda, deixe sua mente entrar em harmonia com o dharma. Se tomarmos refúgio no Buda, mas nossa mente estiver totalmente oposta ao dharma, isso não está certo. Deixe sua mente se inspirar no dharma e gerar paz e humildade.

Em segundo lugar, ao tomar refúgio no dharma, nossas palavras deverão estar de pleno acordo com o dharma. Se tomarmos refúgio no dharma, mas nossas palavras forem totalmente contrárias, isso não está certo. Tentamos, portanto, abandonar as mentiras enganosas, difamar os outros e usar palavras ofensivas; tentamos no dia-a-dia inspirar nossas palavras no dharma.

E em terceiro, ao tomarmos refúgio na sangha, nosso corpo deverá estar em harmonia com o dharma. Devemos viver uma vida em harmonia com o dharma e abandonar atos negativos do corpo, como comportamento sexual impróprio e assim por diante.

Quais os benefícios de se observar os preceitos do refúgio? Ao tomarmos refúgio, começamos a praticar o dharma do Buda, e isso gera numerosos benefícios. Criamos uma base propícia para todos os preceitos e níveis de ordenação. Além disso, estamos protegidos do mal causado por seres negativos humanos e não-humanos; todos os obstáculos e as más influências são pacificados. Não nos separaremos das bênçãos do Buda, do dharma e da sangha em vidas futuras. Os efeitos do carma negativo são reduzidos. Os benefícios são tantos que é difícil enumerá-los.

Vamos agora falar de bodhicitta . Todos os caminhos de um bodhisattva devem ser percorridos no contexto da bodhicitta. Em primeiro lugar, imagine todos os seres que você já viu vivendo com grande sofrimento, como por exemplo os deficientes e os doentes, depois imagine outros que passam por sofrimentos infinitos. Pense nisso muitas vezes até que sinta uma verdadeira e imensa compaixão por eles. Sinta-se como alguém que vai pessoalmente afastar todos esses sofrimentos: eu o farei mesmo que tenha que agir sozinho.

Quando esse tipo de aspiração, de desejo, e coragem surgirem em você, está começando a se tornar um bodhisattva. Desenvolver esse tipo de compaixão e coragem constitui a preparação e o treino de um bodhisattva.

Há três tipos de aspirações para um bodhisattva:

Primeiro, há a aspiração de rei . Um rei tem poder e pode dar ordens que ajudem e beneficiem seus súditos. Isso significa que a pessoa aspira a iluminação para poder ajudar todos os seres sencientes a se iluminar.

Segundo, há a aspiração de comandante , que significa que a pessoa quer se iluminar junto com todos os outros seres sencientes. O barqueiro carrega seu barco de passageiros e cruza, com eles, o rio.

Terceiro, há a aspiração de pastor , que é aquela em que se aspira: "Que todos os seres possam se iluminar em conseqüência dos meus atos positivos. Eu alcançarei a iluminação apenas quando todos eles já tiverem alcançado". O pastor primeiro toma conta das ovelhas e só então vai para casa. Esta é a suprema coragem e compaixão.

Entre as três, a mais nobre é a terceira. Mas cada um pode escolher a que for mais adequada para si; não faz diferença. Há três preceitos para o voto de bodhicitta: abster-se de atos negativos, acumular ações positivas e trabalhar em benefício dos outros. Para abster-se de atos negativos pode se aperfeiçoar os dezoito preceitos originais, mas a essência de todos pode ser resumida em não abandonar os seres sencientes. Abandonar um ser senciente é pior que qualquer outro ato negativo, isso portanto deve ser sempre enfatizado.

Os votos de refúgio e bodhicitta não são apenas práticas preliminares, ou uma coisa a ser feita no início e depois deixada de lado. Recitamos versos de refúgio e bodhicitta no início de nossas práticas, mas eles não são apenas o começo. Eles devem acompanhá-lo sempre, ao longo do caminho. Deve-se manter a compaixão, não abandonar nenhum ser senciente e manter o poderoso compromisso com o voto de refúgio. Esta é a mais importante base para o caminho budista e deve-se pensar sempre que “eu pessoalmente levarei todos os seres sencientes até a iluminação”.

Devemos tentar criar uma verdadeira aspiração desse tipo e trabalhar nela como se estivéssemos procurando ouro. Isso significa que temos que ser verdadeiros, e não falsos nem hipócritas. Se por exemplo você não estiver bêbado, mas agir como se estivesse para impressionar os outros, não será verdadeiro. Quando alguém procura ouro, a pessoa não pensa em mais nada além de ouro. Da mesma forma, deve-se ter um único objetivo em mente para gerar bodhicitta e não fazer isso para ficar famoso.

Se não houver uma ênfase no refúgio, não se pode nem mesmo praticar Hinayana, muito menos Mahayana. Se não houver uma inclinação pela b odhicitta, não se pode praticar Mahayana, muito menos Vajrayana.

É muito importante compreender esse princípio básico. Se a verdadeira bodhicitta se estabelecer em sua mente, você passará a trilhar o caminho dos bodhisattvas e vai sempre encontrar amigos espirituais nas vidas futuras. Receberá o néctar dos ensinamentos do dharma e realizará a iluminação, o perfeito estado de Buda, sem muita demora. Perfeito aqui significa o completo abandono de tudo o que deve ser abandonado e a total realização de tudo o que deve ser realizado.

Buda, em tibetano, é sangye . 'Sang' significa acordado: você acorda de todas as angústias. 'Gye' significa desabrochar: a sabedoria desabrocha como as pétalas de uma flor.

Agora que assentamos os alicerces para o oceano das atividades do bodhisattva, devemos fazer orações como Zangpa Chopa Monlam, ou orações compostas por Nagarjuna, etc. Devemos repeti-las não apenas uma ou duas vezes, mas todos os dias e com tanta freqüência quanto for possível ao longo de nossas vidas para o benefício de todos.

Eu falo sobre refúgio para que não se desperdice esta nossa vida dotada das oito liberdades e dez oportunidades. Claro que há muita gente mais instruída que eu, mas tentei dizer algumas palavras sobre o tema. Um tolo como eu não sabe muito, mas se você mantiver essas palavras em mente, acho que terá alguns benefícios.

Ensinamento dado no Monastério de Tsurphu, em 1998, traduzido por Ringu Tulku Rinpoche.

(Traduzido para o português por Christina Pinheiro)

Redistribuído pela Fundação Tsurphu

 

KTC SP é filiada à Karma Theksum Chokhorling, Centro da Linhagem Karma Kagyu do Budismo Tibetano sob orientação espiritual do Venerável Khenpo Khenrab Wangchuk, representante no Brasil de Sua Santidade XVII  Karmapa Ogyen Trinley Dorje.

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